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Suicídio: Por que é tão difícil falar sobre esse tema?


10/09/2021 Mari Belo

Ainda hoje, me vejo acordando pela noite, com aquele barulho desesperador… 

Era um dia qualquer, já pós pandemia, e eu estava na casa dos meus pais, ainda me adaptando ao home office, trabalhando, enquanto minha mãe guardava a comida do almoço e meu pai, descansava no sofá da sala. 

Ouvi um barulho, inexplicável, mas ao mesmo tempo, desesperador. Saí de imediato do quarto para ver o que havia acontecido e vi minha mãe olhando pela janela, em choque. A chamei, perguntei o que havia acontecido e ela desesperadamente disse, “A menina, pelo amor de Deus, a menina, deve ter a sua idade, está no chão…” 

A coloquei no sofá na tentativa de acalmá-la e, de imediato, pedi que meu pai ligasse ao SAMU, polícia e corpo de bombeiros. Mas, este, que também olhou pela janela após o discurso da minha mãe, também ficou meio sem reação. Tive que reagir e fazer as ligações. 

Enquanto ligava, ouvi uma pessoa, que parecia ser seu marido, encontrar o corpo e desesperadamente gritar: “Eu avisei que ela não podia ficar sozinha, quero meu filho de volta, e chorava compulsivamente.” Foi aí que o desespero ainda maior bateu, além da garota – que aparentava no máximo 30 anos – pular do prédio, levou o bebê de poucos meses junto. 

Não tinha como não questionar. Nem vendo o desespero dos meus pais, que nem sequer a conheciam, conseguia imaginar o desespero dessa família. Apesar de muito ouvir falar, de estudar, nunca imaginei presenciar essa situação. Meus questionamentos ali eram: o que leva uma pessoa a tirar a própria vida? E levar a vida do próprio filho? Que dor é essa? Uma dor na alma? 

Segundo a OMS, no relatório “Suicide Worldwide in 2019”, o suicídio é uma das principais causas de morte em todo o mundo. Em 2019, mais de 700 mil pessoas morreram por suicídio, o que equivale a 1% das mortes, ou seja, uma em cada 100 mortes são causadas por suicídio.

E, ainda segundo a OMS, cerca de 98% dos casos de suicídio estão ligados a transtornos mentais, principalmente a depressão. Com a pandemia, esse número vem aumentando, principalmente entre os jovens de 15 a 29 anos, que hoje já representa a quarta causa de morte, depois de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal.

Segundo Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, cada suicídio é uma tragédia para evitar. Nossa atenção deve se ater à prevenção do suicídio.

Ainda mais importante agora, depois de muitos meses convivendo com a pandemia de COVID-19, com muitos dos fatores de risco para suicídio tais como perda de emprego, estresse financeiro e isolamento social.  

Como apoio aos países, a OMS lançou uma orientação para a prevenção do suicídio, o “Live Life”, que se baseia em 4 estratégias principais: 

  • Limitar o acesso aos métodos de suicídio, (medicamentos, armas de fogo, venenos)
  • Educação da mídia para a cobertura responsável do suicídio (percebem que no Brasil a mídia praticamente não expõe casos de suicídio? Isso tem um propósito por trás);
  • Estimular habilidades socioemocionais aos adolescentes; 
  • Identificação precoce, avaliação, gestão e acompanhamento de qualquer pessoa afetada por pensamentos e comportamentos suicidas. Fique sempre atento às pessoas ao seu redor e busque a ajuda de um profissional.

Não dá mais para ignorar o suicídio, não dá mais para enxergá-lo como “mimimi”. Cada tentativa, cada desabafo é um sinal desesperado de alguém pedindo ajuda para aliviar uma dor da alma que remédio nenhum é capaz de tirar. E a responsabilidade disso é nossa! 

Cada um tem um papel importante de enxergar as pessoas e apoiá-las na busca por ajuda de um profissional, sempre que necessário, sem vergonha, sem achar que é frescura. Saúde mental é coisa séria, cuide bem dela! 

Ainda hoje, resisto em me aproximar daquela janela. Por que ainda hoje, me vejo acordando com aquele barulho desesperador…

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